Construindo Arcos de Conhecimento

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Figura 1


“Marco Polo descreve uma ponte,pedra por pedra.

—Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? — pergunta Kublai Khan.

—A ponte não é sustentada por esta ou aquela pedra— responde Marco—, mas pela curva do arco que estas formam.

Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:

—Por que falar em pedras? Só o arco me interessa.

Polo responde:

—Sem pedras, o arco não existe.”

(CALVINO, Ítalo)


É inerente à humanidade tentar entender o mundo que habita. A estrutura da sociedade procura sustentação em diversos pilares, destacando-se a busca pelo autoconhecimento, seja de seus fenômenos físicos seja dos sociais. Desde os tempos mais antigos, a busca pela compreensão da natureza está presente, começando pelas questões mais simples e logo desenvolvendo conhecimento para que perguntas mais elaboradas pudessem ser respondidas. Ao longo da história, esse processo de construção do conhecimento mudou e o que antes era respondido com base apenas na observação segue hoje uma metodologia de estudo.

Essa transformação veio em decorrência de mudanças políticas, econômicas e sociais iniciadas a partir do século XVI. Assim, a ciência e o método de sistematização começaram a ser cada vez mais utilizados para explicar as mais variadas áreas de conhecimento. Nasceu, nesse contexto, a ciência social, instrumento que inicialmente buscou explicar a sociedade como sistema, baseando-se em critérios empíricos e racionais. Tal abordagem, entretanto, não foi suficiente para abarcar todas as implicações geradas por um organismo tão complexo.

Partindo dessa ideia, é possível fazer uma analogia entre as ciências sociais e o trecho citado de Ítalo Calvino, que aborda o tema: pedra – arco – ponte. Dessa maneira, tem-se a ponte não só como a soma de pedras, mas como resultado de uma organização e estrutura. Assim como a sociedade, que não se limita apenas à soma de indivíduos ou de teorias de forma isolada, mas é fruto de relações interpessoais construídas a partir de normas e de princípios vivenciados coletivamente.

Ademais, com a observação da ponte podemos compreender sua forma, sua função e sua localização, mas uma ponte não se resume à simples perguntas, pois ela representa o resultado de um complexo conjunto de relações entre as pedras que a sustentam. Mas como explicar essas relações? Em cada época da história, poderíamos obter uma resposta diferente sobre, por exemplo, como a ponte foi formada e o motivo dela se manter erguida.

As primeiras respostas eram dadas a partir do conhecimento mitológico que é a explicação fantasiosa dos acontecimentos. Era possível que certa comunidade acreditasse que a ponte se mantém erguida porque existe um ser invisível que foi condenado a segurá-la pela eternidade. Essas histórias mitológicas tinham grande importância nas sociedades antigas e de fato cumpriam sua função, mesmo que atualmente não se aceite esse tipo de resposta como única verdade.

Isso porque o conhecimento de hoje tem a necessidade de se tornar científico; e é justamente o conhecimento científico o aceito como mais próximo da realidade. Contudo, é válido o questionamento:  até que ponto sua validade deve ser aceita? Pois, diversas vezes, o empirismo não pode ser aplicado como forma de comprovação. Dai, segue a dicotomia em aceitar algo como verídico sem poder comprová-lo em sua totalidade.

Analisando essa evolução do conhecimento – do mítico ao científico – cabe fazer uma comparação retomando o trecho citado, de Ítalo Calvino. Segundo o qual uma ponte permite que um obstáculo seja ultrapassado, mas conforme o caminho, pode ser necessária a construção de outra ponte. Ou seja, uma ponte é importante, mas não suficiente para que a estrada seja completamente construída. Situação semelhante acontece com o conhecimento, um arco abre caminho para que mais à frente outro arco seja construído.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, percebemos que o mundo é formado por vários arcos, ou seja, sistemas que se interligam e em que cada parte está ligada de forma direta ou indireta. Desse modo, o mundo é a união entre culturas diversas, indivíduos diferentes e novas perspectivas; que juntas formam arcos ao longo da história. Sendo assim, é necessária a compreensão de que de nada vale um estudo do sistema sem que se identifiquem as características essenciais de cada parte, assim como não há como estudar uma determinada parte sem analisar suas relações com o meio.

Portanto, para que toda essa complexidade seja compreendida mais facilmente, nós a estudamos de forma segmentada. Dessa maneira, destacamos do mundo um sistema, e desse sistema, determinamos um objeto de estudo. Nesse sentido, ao determinar uma área de estudo, deve-se pensar em sua relação com o todo. Essa ideia, é claramente expressa pela interdependência entre as pedras e o arco, logo pode e deve ser levada ao campo da ciência social, incluindo-se a ciência jurídica. Pois, quando o princípio do sistema é seguido, torna-se possível a elaboração de estudos mais completos, com objetos mais facilmente aplicáveis.

Voltando à idéia de ponte – arco, a situação de dependência entre esses dois elementos é semelhante à relação entre o indivíduo e o coletivo, ao sistema em que está inserido. Cada um desses sistemas forma um novo arco e cada pedra da ponte é um novo indivíduo, que faz parte da sustentação da ponte; ou seja, um sistema é formado por diversos objetos.

Há outra relação que podemos estabelecer a partir do trecho de Calvino: a ideia do homem como pedra e o pensamento platônico. Em sua obra “A República”, Platão desenvolve uma república ideal a qual se fundamenta na justiça, como exposto por Bobbio:

“O diálogo de A República é, como todos sabem, uma descrição da república ideal, que tem por objetivo a realização da justiça entendida como atribuição a cada um da obrigação que lhe cabe, de acordo com as próprias aptidões.” (BOBBIO, 1909, p.45)

Nesse sentido, a concepção de Platão sobre justiça está atrelada à ideia de que a sociedade funciona como um sistema. Tanto é que ele encara a sociedade como um organismo, assim como o corpo humano, em que cada órgão é dependente do outro, e o comprometimento de um órgão afeta o funcionamento geral. Essa ideia é chamada de teoria orgânica da sociedade.

O segredo da república perfeita está na harmonia entre as três categorias de homens criadas por Platão, sendo estas: os governantes-filósofos, os guerreiros e os que fazem trabalhos produtivos. A justiça platônica depende da ordem, que só é alcançada quando cada homem cumpre da melhor maneira a atividade a ele destinada. Comparando esse pensamento à relação arco – pedras, percebemos que o fundamento é o mesmo, ou seja, os dois seguem a ideia de sistemas em que o todo depende da parte, assim como as partes não fazem sentido separadamente.

Desta forma, analisando a sociedade como um complexo sistema composto por várias partes menores, individuais, é possível fazer uma analogia entre as pedras e o arco, conforme a explicação de Marco Polo: as pedras seriam aquilo que faz com que a ponte, em formato de um arco (forma abstrata) se torne realidade. As pedras, para o Direito, seriam as leis, normas, enquanto que a união entre essas pedras e os indivíduos da sociedade formariam o que se reconheceria como o arco (o sistema resultante, a sociedade em si). Cabe, a partir desse momento, levantar os seguintes questionamentos: como construir arcos mais duradouros, e eficientes? De que maneira essas novas formas de organização da estrutura (pedras) poderiam ser melhor aproveitadas? Ou ainda, seria possível desenvolver pedras ainda mais resistentes que pudessem criar arcos ainda melhores que os até então criados? Essas perguntas de certa forma se repetiram ao longo da história, e com o tempo foram respondidas e ganharam novas respostas. E, assim, o conhecimento humano, não apenas na área do Direito, mas também nas mais diversas áreas de conhecimento, evoluiu gradativamente. Cabe a nós também estarmos dispostos a tentar construir arcos e pontes ainda melhores.


Figura 1 – Disponível em <http://www.dreamstime.com/stock-images-stone-bridge-central-park-ny-image6442904&gt; Acesso em Março 2015

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